Devaneios
de um quase ser
Olho
o celular na esperança que alguém tenha ligado ou mandado alguma mensagem, mas
já são 01:40. No prédio em frete a última janela se apaga, assim como meu
cigarro, que já estava pela metade, e tomo mais um gole do meu chá barato e
frio. Já deve ser dia em algum lugar do mundo, alguém com seu terno passado
impecavelmente toma seu café da manhã com sua família e o marido briga com a
esposa que ainda não está pronta, pois acordou atrasada novamente... Mal sabe
ele que ela ficou até as tantas passando aquele mesmo terno que ele estava
vestido. Vai ver a luz da janela dela também foi a última a se apagar. Vida
cotidiana, sabe?! Coisa corriqueira, mas que não é tão banal assim.
O
pensamento voa, pois nem ao menos possuo alguém para brigar por uma roupa mal
passada, nem ao menos uma guerra para lutar se não a interna. Mas será que os
dias estão passando assim tão rápidos ou a nossa percepção de tempo que está
distorcida? É tanto o que fazer. É tanta confusão, é tanta loucura.
O
governo atual, que não está lá dos melhores está a ponto de piorar, toda a
situação do país num medo da tal crise que me força a pensar que tudo em mim
também pode piorar, tudo pode desmoronar. Penso então em tudo que está
desmoronando nesse momento, como se as palavras tivessem o poder de ligar meus
pensamentos, onde mal lembrava no que estava pensando no começo. O mundo está
desmoronando, ou está se levantando? O mais complicado é tentar tomar partido
sem partido. Uma menina foi estuprada por cerca de 30 homens, mas realmente
devemos culpar os homens? Ou devemos nos culpar, pois estamos inseridos numa
sociedade que não é nem machista, é desumana! Mas no fim é sempre culpa do
governo. Não é que não devemos nos preocupar apenas com os outros, mas o
reflexo de mim, dessa depressão que assombra, o reflexo disso é no outro, e o
que me deixa assim? A angústia por tentar ser alguém que a sociedade espera que
eu seja. E se o meu pensamento está assim, imagina dessa menina que foi violada
por tantos mesmo querendo os tantos, não foi respeitado o momento do não, esse
mesmo momento que não respeitamos todos os dias quando o corpo pede por pausa e
insistimos em continuar, e ainda depois nos perguntamos por que estamos tão sem
tempo.
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